Tenho 33 anos e não sei fazer amigos
A habilidade social de fazer amigos e conhecer pessoas é como um músculo que caso não exercitado, atrofia. É isso que sinto que aconteceu comigo. Quando criança, tive uma experiência ruim com bullying na escola e tomei a decisão de me isolar dos outros.
Não me enturmar, de alguma forma, parecia me impedir de sofrer. Esse era meu pensamento na época. Quando, na verdade, o isolamento só faz você se destacar mais da multidão — olham para você como um estranho, o que atrai ainda mais o bullying. De qualquer forma, me sentia mais seguro estando sozinho.
E foi assim por toda a minha vida escolar. Construí poucas amizades no caminho, mas elas nunca passavam da superfície. Não gostava de visitar meus amigos nem de ser visitado por eles, limitando nossas interações apenas às dependências do colégio. Afinal, sempre fui o típico introvertido. Para mim, interações são desgastantes e exaustivas, apesar de gostar delas de vez em quando. Na maior parte do tempo, prefiro minhas horas sozinho, recarregando as energias e fazendo as minhas coisas. Mas ainda sinto falta de companhia com frequência.
Amizade exige esforço e trabalho de ambos os lados. As pessoas se abrem, falam de si e esperam que você faça o mesmo. Mas eu só falo de mim se for perguntado. Não me abro nem dou a oportunidade para que me conheçam de verdade. Eu era o lado relapso, frio, distante e que pouco demonstrava interesse. Com o tempo, minhas quase amizades escolares se afastaram por conta das mudanças de colégio e dos rumos da vida. Assim, os amigos ficaram cada vez mais raros, a ponto de eu passar todo o ensino médio completamente só.
Eu era como um fantasma que chegava, passava pelo intervalo, assistia às aulas e ia embora, invisível. Mas eu era invisível porque me fiz ser invisível. Eu ignorava a todos, e como resposta todos me ignoravam. Fazia um esforço ativo de evitar as pessoas, para evitar o sofrimento. Com anos de prática, meu esforço passou a ser instintivo. Hoje, evito falar com as pessoas por mero reflexo. O problema é que nem sempre quero evitá-las.
Hoje, meu esforço está em conseguir falar com um desconhecido. Um esforço pesado e doloroso, que me custou muito por muito tempo, e ainda custa. Tudo porque escolhi não exercitar meu músculo social no período e no lugar perfeitos para isso: na escola. O lugar que você ia todos os dias encontrar pessoas da sua idade. A escola é a melhor academia para o músculo social.
Já não sei quantas amizades (ou possibilidade delas) perdi dentro da escola e após muito tempo do fim do ensino médio. Pessoas que se aproximaram tentando criar uma conexão, mas se afastaram por não terem um retorno meu. Sofri com a partida de muitas delas; pessoas com quem quis construir algo e que, pra mim, eram valiosas.
Hoje, aos 33, sinto que as coisas ficaram ainda mais difíceis. E mais do que nunca sinto a idade começar a me deixar pra trás, aumentando meu desespero e o anseio por alguma conexão sincera. O problema é que sei que, mesmo se conhecer alguém novo hoje, estaria plantando meu sofrimento de amanhã. Porque ainda não sei manter uma amizade, e tudo sempre acaba comigo afastando os outros. Já vi essa novela e não quero isso de novo. E o pior é que eu sei que a única solução é praticar. Desaprender a ser um exímio antisocial, para aprender, finalmente, a me relacionar com os outros.